29 de out. de 2013

Sandrine

Era o fim da tarde de uma terça-feira comum. Ele seguia pelo caótico trânsito, da metrópole quente e ruidosa, em seu automóvel recém adquirido. A cabeça vagava longe, se perdia na doença psiquiátrica da mãe, no namorado cafajeste da irmã, na falta que o pai fazia e na sua própria insuficiência. Luzes o cegavam de todos os lados, buzinas penetravam-lhe fundo os tímpanos, e o relatório por terminar no trabalho roubava todo o restante de sua concentração.
O cara levou um susto quando um som ensurdecedor caminhou do carro de trás e o alcançou tomando-o de seus devaneios, ele havia se esquecido de controlar a velocidade do carro e agora o veículo se movia lentamente, ele pisou no acelerador. Fechou as janelas do carro e ligou o ar condicionado. Sua mente voou para ainda mais longe. Em segundos, ele beijou a namorada de infância, visitou o túmulo do falecido pai e deu uma surra no cunhado imprestável.
Olhou no espelho do carro e se viu cheio de olheiras, cansado e velho no auge de seus vinte e poucos anos. Pedro já nascera com esse jeito decadente, dia após dia pior. Jamais provara das traquinagens da infância ou da despreocupação da adolescência, viera ao mundo pronto para ser um adulto precoce.
O pai, Seu Mauro, morrera em um dia de sol quente demais, um enfarto o levara, e ele nem tivera a oportunidade de presenciar o aniversário de 7 anos de Pedro ou o de 3 da menina Alice. Dona Luisa que sempre fora conhecida por ser cheia de vida, de juventude que se propagava de seus longos cabelos louros, acabara por esquecer o juízo em algum lugar pouco tempo depois e tudo sobrara para que Pedro resolvesse, ele não tinha outra opção a não ser o homem da casa agora. Os brinquedos, os amigos, os sonhos, foram todos largados, pois, para o garoto era demasiadamente pesado a vida de homem e a de menino. Ele escolheu ser homem. Tomou frente do controle da casa, da saúde da mãe e da educação da irmã; enquanto protagonizava uma farsa na qual todos achavam que a família ia bem e Dona Luisa ainda era a mãe de família exemplar que sempre fora e que era dona de uma força inabalável por perder o companheiro dos últimos 15 anos e não permitir que nada mudasse em sua casa.
Os pais de Pedro casaram-se num inverno cruel, o mais frio dos últimos 50 anos, em um sábado corrido e escondido. Os pais de Dona Luisa, detestavam Seu Mauro assim como os pais de Seu mauro detestavam Dona Luisa, nenhuma das famílias consentia o namoro, o jeito que viram para viver esse amor foi o casamento. Assim fizeram, escolheram um ao outro e jamais voltaram a ver ninguém do mesmo sangue. Foram deserdados. Ele foi trabalhar como soldado no exército brasileiro e ela como costureira em uma das fábricas de roupas de época. Tentaram durante longos oito anos ter um filho e nada, ela nunca engravidava. Ganharam dinheiro e status, e logo depois, o desejado filho, o garoto Pedro. Eram uma família perfeita que se alegrou ainda mais quando 3 anos depois outra gravidez aconteceu e nasceu Alice, a flor do papai.
Alice também nunca mais foi a mesma. Pedro desconfiava que ela compartilhasse da mesma loucura que a mãe, mas chegava a acreditar que não quando ele mostrava suas fraquezas e ela o obrigava a voltar a ser seu porto seguro. Nesses momentos ele notava que tinha se tornado mais que irmão dela, tinha se tornado quase um pai. Era dai que ele tirava combustível para seguir, pois por ele, já teria desistido.
Pedro realmente só vivia para Dona Luisa e Alice, até que Sandrine invadiu sua vida. Ela chegou como uma flecha indígena, rasgando a pele e espalhando veneno por todo o corpo. Quando ele notou, a ruiva de estatura média, já havia se instalado, nele, na sua casa e em qualquer lugar em que ela coubesse. Ele passou a coexistir, a viver de amor.
Sandrine tinha o dom de fazê-lo sentir o que ele nunca havia sentido, fosse o que fosse. Eles passavam horas juntos, deitados sobre o capô do carro herdado do pai, contando as estrelas e imaginando como seriam os filhos que teriam, como seria a decoração da sala e quantos vezes por dia teriam um ao outro. O mundo tinha sabor de tutti frutti e textura de algodão doce. Ao lado da mulher de cabelos cor de fogo, Pedro conseguia ser ele mesmo, do jeito que ninguém nunca entendeu de verdade; ele perdia aquela mania de perfeição, perdia aquelas inseguranças que se tem depois dos 40, perdia a noção do tempo e espaço, ele só estava ali para amar e ser amado. Junto dela, ele conheceu o paraíso e gostou do que viu; quando ela se foi, ele foi parar no inferno e de lá não conseguiu sair.
Sandrine também morreu no fim da tarde de uma terça-feira comum. Enquanto eles seguiam pelo caótico trânsito, da metrópole quente e ruidosa, no automóvel que Pedro herdara de seu pai. Comemoravam mais um aniversario de namoro, quando enquanto ele se dirigia, se virou para sorrir a ela, e só acordou um mês depois, numa cama de hospital.
Foi um acidente terrível. O coma de Pedro durou exatos 30 dias, e ele não morreu por muito pouco; o que o salvou foi o cinto de segurança e o airbag que inflou rápido. Sandrine não teve a mesma sorte, ela não usava cinto, e o airbag não suportou o impacto da carreta contra o carro. Ela morreu na hora.
 O choro de Pedro perdurou por dias, semanas e ainda não cessou. As lágrimas do menino homem não pararam, até hoje. A saudade o mata pouco a pouco.
Ainda no trânsito, depois do susto que levou com a buzina do outro motorista, Pedro seguia o mais tranquilo possível quando o sinal fechou e ele parou antes da faixa de pedestres.
Um daqueles artistas de rua, entrou rua adentro e começou sua apresentação. A pessoa girava entre os pedaços de corda com pontas flamejantes que pareciam voar ao seu redor, o calor emanado atingiu a pele, o peito do velho jovem muito rápido. Os segundos começaram a ser muito maiores do que as horas, ele admirava a dança de luz, até que ele notou se tratar de uma mulher.
Talvez ela fosse mais alta que Alice e mais baixa que Pedro, seus cabelos se misturavam ao fogo em sua mãos, sua expressão carregava um sorriso largo de dentes que cintilavam, o olhar negro e profundo fugia às chamas e encontrava os olhares que se arrastavam pela rua, a pele morena brilhava sob o reflexo vermelho e reluzia sob o restante do pôr do sol. Inacreditável, ele pensou. Era Sandrine, era seu amor quem estava ali.
Quando ele se virou para destrancar a porta, o sinal abriu e o motorista de trás, todo desesperado buzinou novamente. Pedro teve de seguir, e a malabarista voltou à calçada e seguiu andando em direção contrária à dele. Esse coração sofrido que ele carrega, agora, só por tê-la visto já tem mais conforto. O garoto nunca mais a viu, nem o tentou, afinal, algo maior que a vida os separava.
Entretanto, o amor de Pedro continua crescendo desmedidamente. Ele sabe que um dia a terá de novo em seus braços e isso o faz feliz, por enquanto.

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