E a dama trajada de solidão e desapego atravessa a pista exibindo o
corpo que Deus lhe dera. Com olhar taciturno ela fita cada homem ali; observa a
barba mal feita do cara que toma uísque encostado na mesa do bar; verifica se o
sorriso do rapaz que ri para a esposa está perfeito, e até conta quantos
músculos são salientes nas costas do jovem que é gentil com o garçom. Ela quer
ter certeza de que terá o homem mais perfeito presente naquele salão.
Ela percebe um sujeito, um tanto quanto diferente dos outros. Ele está
sentado ao norte, sozinho em uma mesa para dois. Ele toma um drink escuro que
ela não identifica o que é. Nas mãos dele, não há sinal de aliança. Ele encara
o arranjo de copos-de-leite sobre a mesa e parece estar com a cabeça bem longe.
Seu rosto lhe é familiar, mas ela não faz idéia de onde.
Essa mulher, que pensa como se não houvesse ninguém além dela no mundo,
chama o garçom que acabara de servir champanhe a um casal de namorados que
parece comemorar alguma coisa; quase como um sussurro ela ordena ao moçoilo:
- Leve àquele senhor, que está sentado naquela mesa -ela desliza o olhar
até o homem misterioso- um pedido meu. Diga a ele que o espero em cinco minutos
no meio da pista. -o rapaz assenti com a cabeça e saí cambaleando,
completamente desnorteado pela beleza da dama.
Ela confere de longe como o rapaz recebe a noticia e como ele a olha
através dos cílios. Ela se surpreende quando o dono dos traços mais perfeitos,
mal espera o garçom sair de seu lado para em passos largos se dirigir à pista onde
todos dançam.
Ela mede o tempo de algum jeito que nunca revelou a ninguém, pois no
completar dos cinco minutos se pôs ao lado dele. Tocou-lhe o ombro e ele se
virou:
-Oi.-ele disse com a voz entrecortada. Mesmo no meio da multidão ela
pôde sentir o hálito fresco dele em contato com sua narinas
-Oi. -sua voz aveludada ecoou na cabeça do rapaz.
-Sabia que era você. -ele segura o rosto dela com as mãos.
-Sempre serei eu. -ela suspirou exalando seu perfume de flores.
Ela fecha os olhos, e ele se aproxima, querendo ter certeza de que a
distância entre eles está diminuindo. A dama pousa os braços sobre os ombros do
cavalheiro e ele envolve a cintura dela com garra. Eles se beijam com
necessidade, ferocidade e amor. Até que desconectam os lábios e unem as testas.
-Não saia mais da minha vida. -ele suplicou a ela.
-Não permita nunca mais que eu saia da sua vida. -uma lágrima salgada de
tristeza que se esvai do corpo, correu pelo rosto dela. Ele a enxugou com as
costas da mão esquerda.
-Não permitirei. -ele parece jurar. -Vamos, para casa ?! O sol já está
quase nascendo e eu preciso de você ao meu lado pela manhã.
-Por todas as manhãs e por todas as noites. Por toda a vida.
Eles juntos, se viraram para onde a saída sul estava localizada. Ele
envolvendo-a em um meio abraço, e guiando-a no meio da multidão possuída pela
música frenética das caixas de som, chegaram à saída. Ela o olha mais vez, só
para garantir que está com o homem mais perfeito dali, e então toma certeza.
Ela podia ter qualquer um, mas qualquer um não era ele. E ele era o perfeito
dela.
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