A jovem de cabelos longos e negros, como uma
cascata de morte, andava contra o vento. A camiseta de algodão voava e
destampava o buraco em seu estômago, deixando-o a vista de todos,
envergonhando-a. Ela lutava para manter o tecido baixo, escondendo sua imperfeição,
mas era uma luta vã. Nada funcionava, a camiseta puída sempre vencia.
As vezes, ela se sentia diferente dos outros.
Na verdade, ela se sentia sempre anormal. Porque nunca, jamais, em ninguém ela
viu algo parecido ou algo que quase parecesse com aquele buraco esquisito que
ela tinha.
Ela não se lembrava bem de quando ele tinha
aparecido, e nem fazia questão, queria mesmo era guardar espaço na memória para
lembrar do dia em que ele desaparecesse. Por isso vez ou outra ela se esquecia
do próprio nome, de quem vivia com ela e até de quem ela vivia. Ela perdia
mesmo a identidade e já era habituada a ficar alguns dias sumida, por aí. Uma
vez ela disse que passou dias ouvindo uma música que odiava porque não se
lembrava quem essa música lhe trazia a memória. Mas ela era esperta, sempre
arranjava um jeito de voltar para ela mesma, sã e salva.
Ela era meio desatenta; mas depois de ter
tentado preencher o buraco com livros, canções, pessoas, religiões e até
rancores; ela passou a andar prestando mais atenção nas coisas ao seu redor.
Naquele dia, enquanto ela guerreava contra o vento, ela viu virando a esquina
ao sul, um enorme panapaná de borboletas amarelas e laranjadas traçadas de
azul. Em seus lábios trincou um sorriso. Em seus olhos brotou um brilho antes
jamais visto. Ela precisava delas para tampar aquele buraco, porque elas eram
lindas e eram muitas. Poderiam viver bem juntas, assim ela pensava.
Num acesso de loucura ela subiu a blusa até o
queixo sem se importar com os olhares de julgue sobre sua pessoa. Parou de
correr ao leste e rumou ao sul, dançando pela ventania desentoada, a distancia
entre ela e as borboletas ficava menor a cada instante. Lagrimas de alegria
saltavam de seus olhos e se aventuravam no meio do bafo fresco que corria pela
Terra. Ela alcançou as borboletas. Ficou na ponta dos pés e a primeira, toda
laranjada de faixa azul nos olhos, ficou presa no buraco. Ela voltou os pés ao
chão e expirou o ar que estava preso em seus pulmões. Encheu o peito novamente
e se pôs na ponta dos pés de novo e prendeu a segunda. Ora segurando-as com as
mãos e ora fazendo-as voar até se prenderem sozinhas, ela pegou todas, não sei
ao certo quantas, mas todas.
A partir daquele instante, ela se tornou uma
garota satisfeita com a vida, com o destino e consigo mesma. O buraco estava
tapado, e seu coração estava saciado. As borboletas estavam sempre voando e
fazendo-a sentir as melhores sensações. A vida era enfim, bela. Ela só não
esperava que sua felicidade afetasse o destino, a ponto dele jogar com ela,
outra vez. Mas foi o que aconteceu.
As borboletas foram cansando com o tempo. A
revoada, de suas amigas, já não era mais tão freqüente. Elas pareciam ter se
cansado do mesmo céu que encontravam voando no estômago da garota. E isso
foi fazendo com que ela voltasse a ser quem era antes do buraco ser preenchido,
agora, com uma gota a mais de dor. A dor do arrependimento. Ela já não se
sentia em paz, o peso na consciência era demasiado para que ela suportasse. A
agonia das borboletinhas infelizes, trazia a ela, nojo de si mesma.
Então, num fim de tarde seco, quando o sol
beija a lua e as nuvens os abarcam num abraço carinhoso, ela as libertou.
Simples assim, se pôs de pé na porta da sala de casa, levantou a blusa e as
deixou voar. Devolveu a elas a liberdade outrora roubada. Corrigiu a atroz
covardia que havia cometido.
A culpa deixou de ser sua companhia diária. O
vazio estava lá de novo. Mas a vida é tão longa. Existem tantas possibilidades
de preenchimento para ainda tentar. Por que sofrer se uma não deu certo ? Basta
tentar outra vez. A solução é diferente para cada um. Contando que não te mate,
vale tudo.
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