25 de set. de 2013

Guardo o

Olhei o nos olhos, com intensidade que me permitia ver o quão fundo estava o buraco em seu peito. Me entristeci com o que encontrei. O machucado era grande, daqueles que só vai aumentando, e nunca para de crescer. Como eu queria salva-lo daquela dor terrível, mas não podia. No meio de todo silencio, eu ainda podia ouvir seu olhar gritando meu nome. Mas quem me dera poder ficar, agora que meu coração já não pertencia a ele, eu só traria desgostos à sua alma despedaçada.
Por isso, deixei o olhar dele vagando pela sala, e segui ao quarto. Peguei uma daquelas malas, já gastas de tanto que as usávamos nas viagens, e nela guardei meu cheiro, catei os fios de cabelo jogados sobre o travesseiro, recolhi as calcinhas do varal e tudo o mais que fosse meu; subi na mala e tentei fechar o zíper, até que consegui enclausurar dentro da sacola de pano qualquer vestígio meu que ainda pudesse lembra-lo de mim.
Voltei à sala e ele ainda estava imóvel, sequer um músculo mudara de posição. Retornei de frente a ele e estacionei meu olhar no olhar dele, busquei fazê-lo sentir-se afagado com um beijo de despedida, no rosto. Depois dei de ombros e segui alguns passos até alcançar a porta. Destranquei-a e antes de abri-lá, olhei à minha esquerda e encarei o suporte de chaves na parede; em mogno vermelho a peça artesanal dizia "Nossas chaves", pendurei as chaves que já não eram mais nossas e levei a mão direita ao trinco da porta com a força que tinha, que em um milésimo de segundo girei em sentido horário e ela se abriu. O corredor do prédio, naquela quarta-feira nublada, estava completamente vazio. Apenas a luz do elevador, que ficava a cerca de dois metros, habitava o espaço onde todos passam e ninguém fica.
Tentei dar o primeiro passo, e por um segundo enrijeci o corpo todo quase dando meia volta; me controlei e dei o segundo passo, tentando expulsar dos meus pulmões todo o medo e aflição que me possuía; no terceiro passo, não pude controlar a lagrima desesperada por liberdade que saltou pestana afora e se aventurou escorregando pelo meu rosto. Mesmo com o diafragma doendo, eu enchi o peito e virei de costas, não pra voltar, mas pra olhá-lo pela ultima vez. Há uns 10 passos da porta ele me fitava choroso, mas sereno. Me recompus e tornei o rosto a frente, agora como quem agia normalmente segui até o elevador, sem contar os passos nem tentar conter a dor que se apoderara do meu peito. Apenas fui como quem nunca devia ter vindo.
Dei sorte, o elevador chegou antes que eu precisasse parar para espera-lo. Entrei com a velocidade que um raio desce -ou sobe- à Terra. Cerrei os punhos, torci os lábios e quase esmaguei os globos oculares enquanto tentava amenizar a ansiedade de chegar ao térreo depressa. Cheguei, agradeci a Deus por ainda não ter infantado. Com o caminhar pesado, me dirigi à saída daquele edifício, onde nos últimos anos vivi os mais lindos momentos que podia imaginar. E assim que pousei o pé na calçada, o vi parado ao lado do carro, foi quando me lembrei de um detalhe impossível de esquecer... A aliança lisa e dourada em meu anelar esquerdo. Era a única coisa dele que havia trago comigo, mas é o que daqui não devia passar. A encarei mais uma vez, só para gravar bem na mente como ela era, e depois a tirei. Não fiz questão de evitar, só por estar na frente dele, o carinho que em mim existia por aquela jóia; beijei-a e depositei no circulo de ouro toda a minha gratidão por ter me proporcionado durante tanto tempo a chance de fazê-lo feliz como fiz, e também a gratidão por ter sido feliz com fui. Logo em seguida, deixei cair a mão ao lado do corpo e da mão cair a aliança. Deixei na porta dele, meu amor por ele.
O cara, meu novo amor, ainda estava parado no mesmo lugar enquanto me observava. Acenei com a cabeça e ele veio de encontro a mim. Chegou e me envolveu em um abraço carinhoso, quente, amoroso, terno; me acolheu como eu precisava. E me amou dali em diante como eu o amava; sem garantias, sem promessas eternas e sem cobranças, apenas me amou guardando-me junto de si, como eu o guardava.
Se eu esqueci meu amor anterior ? Te respondo que, com certeza não ! mas a vida me ensinou que tudo passa, até o amor que você acha que é único ou a dor que você acha é eterna.; e por isso meu amor por ele já não é mais o mesmo e nem está mais no mesmo lugar de antes, está agora em um lugar melhor, um lugar onde eu guardo os maiores tesouros que tenho. Está dentro do coração !

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