Por isso, deixei o olhar dele vagando pela sala, e segui ao quarto. Peguei uma daquelas malas, já gastas de tanto que as usávamos nas viagens, e nela guardei meu cheiro, catei os fios de cabelo jogados sobre o travesseiro, recolhi as calcinhas do varal e tudo o mais que fosse meu; subi na mala e tentei fechar o zíper, até que consegui enclausurar dentro da sacola de pano qualquer vestígio meu que ainda pudesse lembra-lo de mim.
Voltei à sala e ele ainda estava imóvel, sequer um músculo mudara de posição. Retornei de frente a ele e estacionei meu olhar no olhar dele, busquei fazê-lo sentir-se afagado com um beijo de despedida, no rosto. Depois dei de ombros e segui alguns passos até alcançar a porta. Destranquei-a e antes de abri-lá, olhei à minha esquerda e encarei o suporte de chaves na parede; em mogno vermelho a peça artesanal dizia "Nossas chaves", pendurei as chaves que já não eram mais nossas e levei a mão direita ao trinco da porta com a força que tinha, que em um milésimo de segundo girei em sentido horário e ela se abriu. O corredor do prédio, naquela quarta-feira nublada, estava completamente vazio. Apenas a luz do elevador, que ficava a cerca de dois metros, habitava o espaço onde todos passam e ninguém fica.
Tentei dar o primeiro passo, e por um segundo enrijeci o corpo todo quase dando meia volta; me controlei e dei o segundo passo, tentando expulsar dos meus pulmões todo o medo e aflição que me possuía; no terceiro passo, não pude controlar a lagrima desesperada por liberdade que saltou pestana afora e se aventurou escorregando pelo meu rosto. Mesmo com o diafragma doendo, eu enchi o peito e virei de costas, não pra voltar, mas pra olhá-lo pela ultima vez. Há uns 10 passos da porta ele me fitava choroso, mas sereno. Me recompus e tornei o rosto a frente, agora como quem agia normalmente segui até o elevador, sem contar os passos nem tentar conter a dor que se apoderara do meu peito. Apenas fui como quem nunca devia ter vindo.
Dei sorte, o elevador chegou antes que eu precisasse parar para espera-lo. Entrei com a velocidade que um raio desce -ou sobe- à Terra. Cerrei os punhos, torci os lábios e quase esmaguei os globos oculares enquanto tentava amenizar a ansiedade de chegar ao térreo depressa. Cheguei, agradeci a Deus por ainda não ter infantado. Com o caminhar pesado, me dirigi à saída daquele edifício, onde nos últimos anos vivi os mais lindos momentos que podia imaginar. E assim que pousei o pé na calçada, o vi parado ao lado do carro, foi quando me lembrei de um detalhe impossível de esquecer... A aliança lisa e dourada em meu anelar esquerdo. Era a única coisa dele que havia trago comigo, mas é o que daqui não devia passar. A encarei mais uma vez, só para gravar bem na mente como ela era, e depois a tirei. Não fiz questão de evitar, só por estar na frente dele, o carinho que em mim existia por aquela jóia; beijei-a e depositei no circulo de ouro toda a minha gratidão por ter me proporcionado durante tanto tempo a chance de fazê-lo feliz como fiz, e também a gratidão por ter sido feliz com fui. Logo em seguida, deixei cair a mão ao lado do corpo e da mão cair a aliança. Deixei na porta dele, meu amor por ele.
O cara, meu novo amor, ainda estava parado no mesmo lugar enquanto me observava. Acenei com a cabeça e ele veio de encontro a mim. Chegou e me envolveu em um abraço carinhoso, quente, amoroso, terno; me acolheu como eu precisava. E me amou dali em diante como eu o amava; sem garantias, sem promessas eternas e sem cobranças, apenas me amou guardando-me junto de si, como eu o guardava.
Se eu esqueci meu amor anterior ? Te respondo que, com certeza não ! mas a vida me ensinou que tudo passa, até o amor que você acha que é único ou a dor que você acha é eterna.; e por isso meu amor por ele já não é mais o mesmo e nem está mais no mesmo lugar de antes, está agora em um lugar melhor, um lugar onde eu guardo os maiores tesouros que tenho. Está dentro do coração !
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