9 de set. de 2013

Um Amor Digno De Literatura


Eu brincava com a xícara de café quando ouvi o sino da porta tocar. A lanchonete estava cheia e sem mesas vagas, pois o dia era frio e a rua não tinha quase ninguém. Levei os olhos até a porta por puro passatempo, quando me perdi admirando cada detalhe que ele carregava em si. O rapaz era alto e magro, mas não muito, óculos de grau, camiseta, calças de moletom e tênis. Ele avaliava todas as faces monótonas que ali estavam, se virou pra esquerda e depois pra direita, correndo os olhos por todas as mesas. Ajeitei meus próprios óculos, só então vi a tatuagem que escapava pela gola da camiseta, fosse o desenho que fosse, era linda.
Ele estacionou os olhos sobre mim, e passando entre as mesas caminhava em minha direção. Olhei para o meu reflexo no café da xícara que estava em minhas mãos, queria ver se havia algo de errado comigo, mas eu parecia normal. Oh! Meu Deus! Ele chegou.
_Se importa se eu me sentar?- engoli em seco.
_Não!- gaguejei.
_Não se importa ou não posso me sentar?
_Não me importo!
Sua expressão ficou vazia. Ele puxou a cadeira e se sentou. Cerrou os punhos embaixo do queixo e passou a me encarar por cima das lentes dos óculos. Eu podia sentir meu coração batendo no estômago. E rezava para que ele não pudesse ouvir.
_Eu sou Alan. - ele estendeu a mão.
_Eu sou Denise. - envolvi sua mão com a minha.
_O que você está lendo?- ele pousou os olhos sobre o livro que estava no canto da mesa.
_O Morro dos Ventos Uivantes.
_Eu já li. Gosto de amores obsessivos. Na literatura eles são belos.
_Quem derá fosse assim na vida real...- soltei um suspiro de lamentação.
_Mas é por isso que é na literatura que eles são belos.- franzi o cenho sem entender direito o que ele queria dizer.- Não é assim na vida real, porque na vida real obsessão não é amor.
_Talvez você tenha razão...
Outra vez o silêncio. Eu varria a mente em busca de alguma proveitosa a dizer, quando inspirei e abri a boca para dizer algo que considerei tolo demais, voltando novamente os olhos para xícara de café. E ele com cara de decepcionado por eu não puxar assunto, agora encarava a própria mente.
_Porque está na rua em um dia tão bom pra ficar em casa?
_Tinha de buscar estes óculos novos então quis tomar um café. - mordi o lábio para tentar disfarçar meu constrangimento.
_São lindos seus óculos.
_Obrigada! E você por que está na rua?
_Não sei! Só senti que devia sair, e saí. - um sorriso trincou na canto de seus lábios.
_Interessante. –menti.
_Não há nada de interessante nisso. –ele riu sem jeito.
_Vamos, me diga o motivo real. –tentei parecer descontraída.
_Queria mesmo era ver você, - minha testa se enrugou com a afirmação dele.- sendo mais preciso, queria te rever.
_Rever de onde?
_Daqui mesmo. –um sorriso trincou no canto dos meus lábios. –Eu estive nesse exato lugar durante todos os últimos meses, sempre no horário em que sabia que você estaria aqui, só para te admirar. –ele deixou cair o olhar aos dedos inquietos sobre o tampo da mesa de plástico. –Mas você nunca me viu.
Um filme passou por meus olhos nesse exato instante, eu não podia acreditar que o coração dele pudesse sentir, uma pequena parte que fosse, do que eu sentia.
_Vi sim. Eu te vi todos os dias. –eu tentava controlar a excitação estampada em mim, já ele não tentou esconder a expressão assustada que se apoderou de seu rosto. –Mas jamais imaginei que você estivesse aqui por mim.
_Mas estive, e ainda estou.
_Eu gostaria de saber o que dizer, mas, não sei.
_Que tal aceitar meu convite para viver um amor como o de Catherine Earnshaw e de Heathcliff? –um sorriso maroto brotou em seu rosto.
_Não seria mais adequado apenas um convite para jantar? –sorri constrangida.
_Seria normal demais. –o rosto voltou a ficar serio.
_E o que você disse sobre amores obsessivos? Catherine e Heathcliff eram pura obsessão.
_Disse que adorava e que na literatura é belo. –ele pareceu intrigado.
_Se apenas na literatura é belo, por que quer viver um desses? –rezei para que ele tivesse resposta.
_Porque um cara que espera meses para dizer oi à amada, não vive muito na realidade. Esse é louco a ponto de poder viver um amor de conto de fadas. –seus olhos pareceram implorar por palavras positivas.
_Você tem toda razão. –me pus de pé e abri o maior sorriso que pude. - Por onde começamos?
Em meio segundo Alan se ajeitou ao meu lado. Entrelaçando seus dedos na mão entre os meus dedos da mão. Sorrindo beijou-me na bochecha esquerda. Disse tentando controlar a alegria que expressava na voz:
_Senhorita Denise. –reclinando um pouco o corpo, ele se virou tomando minha mão direita, e erguendo-a na altura do rosto. –Eu adoraria levá-la para um passeio pelas redondezas, me daria essa honra? –ele beijou-me a mão.
_Sim senhor, me sentiria lisonjeada. –sua alegria transparecia seu ser.
Ela deu o braço a ele. Juntos eles caminharam rumo à saída daquela lanchonete, de um lugar qualquer, de mundo qualquer; nutridos única e exclusivamente de um desejo de vida, de amar e de fazer desaparecer as fronteiras que separam a realidade vivida da realidade de papel. Porque eles eram dignos de viver um amor de literatura.

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