A noite envolve a chuva, que desaba sobre o teto do auto que os abriga. A mulher luta com a necessidade de vigiar a escuridão da rua e o desespero para admirá-lo. As gotas d'água deslizam sobre o teto de metal como as gotas de suor brilham sob a luz da lua enquanto caminham pelo rosto moreno que acaricias.
Ele é forte e grande como um urso, é doce e suave como uma pétala de lírio amarelo, a manipula com a doce melancolia que exala, a cola em si com o calor magnético que seus gestos carregam. Ele é o médico e o monstro. A doença e a cura. O bem e o mal. Ele é o sim e o não que o passado e presente evitam.
O contorno do seu maxilar é marcado, e abaixo da linha do queixo há a marca do beijo que a jovem amada lhe dera, antes dele partir para os braços de outra.
Hoje eles falaram de amor, traição, alegria e dor. Em uma dimensão paralela a essa, enquanto a moça de longos cabelos luminosos falou ao rapaz tudo o que tem sentido e sobre como a dor se acomodara dentro de sua caixa torácica, ela os imaginou juntos.
Em seu devaneio mais belo e sincero, eles caminhavam sob luz do por do sol, molhando os pés na água salgada, de mãos dadas e olhares fixados na alma. Vendo ao longe o quebrar das ondas ele admirava o que tinha nos braços. A garotinha de médios cabelos lisos e olhos brilhantes parecia uma boneca de porcelana parisiense, que fitava orgulhosamente o rapaz que a levava nos braços. Uma mão no ombro dele e a outra acampada no meio dos cabelos da moça que caminhava junto deles. A menina parecia saber que se tratava de um sonho, a cada segundo permitia-se envolvê-los em algo ainda mais forte. Algo que não se via, algo que se sentia. Era como se ela fosse a ligação, o ponto de encontro, o intermédio para que eles vissem o quanto se amavam. Seus gritos pareciam abafados pelo silêncio que deles partia. Ah! a coitadinha queria dizer para que apenas se encarassem nos olhos, nem que só por alguns segundos. Ela sofreu ao vê-los se afastar. A moça sentiu a adaga da realidade rasgando-lhe a pele e perfurando os pulmões, sugou o ar que pode com a força que teve e se assustou quando desajeitadamente mergulhou nos fundos olhos do rapaz. Ele estava imóvel, nem um milímetro fora de onde estava quando ela começara a sonhar.
A verdade é que a verdade não precisava ser dita mais uma vez, o coração dos dois já havia se cansado de declarar um ao outro a mesma coisa tantas vezes, mesmo que jamais, uma declaração de amor tenha caminhado garganta afora de nenhum deles. Não precisavam mais conversar sobre isso.
Sob o tilintar do mundo fora do auto, eles se abraçam, ele beija o pescoço da moça que se arrepia num instante, ela respira próximo ao ouvido dele e sente quando é agarrada com mais força. Com os lábios carnudos ele percorre a pele rosada do pescoço, espalha curtos beijos nas bochechas salientes e abocanha os lábios dela. Sua língua pede passagem e ela permiti, de longe se ouvem respirações descompassadas, resfolegantes. Há desejo, há carinho, há amor. Ele salta para cima dela que está no banco do passageiro. Suas mãos percorrem a pele nua das pernas da moça, ele aperta a coxa direita dela sem perceber que neste mesmo momento ela se arrepia lentamente, novamente. Involuntariamente, as mãos finas e brancas da garota, começam a arrancar vagarosamente a camiseta azul que ele veste. A camiseta voa pro chão. E as unhas da moça grudam-no as costas quando eles percebem... A chuva começou a parar e era de voltarem dessa dimensão paralela e assustadoramente maravilhosa.
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