17 de jan. de 2014

Pequeno Fim Do Mundo

O celular despertou exatamente as 06h30min da manhã, como todos os dias. Num salto ele se pôs de pé e a procurar entre as cobertas o objeto de som ensurdecedor. Encontrou-o e desligou num toque lutando contra a vontade de arremessá-lo à parede. Jogou-o de volta ao ninho de tecido e tentou se espreguiçar, sentiu seu esqueleto estalar no encontro de cada vértebra. Expulsou o ar dos pulmões e inspirou sentindo seu próprio cheiro. Esta manhã ele cheirava a flores. E só sabia disso, não fazia ideia de que flor fosse esse cheiro –seu olfato nunca fora bom-, só sabia que ele estivera impregnado no pescoço de uma loira –ou seria morena ?- com quem ele estivera algumas horas atrás.
Partiu para o banheiro de sua suíte. Os azulejos negros por toda a parede o confortaram um pouco, ele gostava de tudo escuro. Enquanto parou frente ao espelho e se concentrou em escovar os dentes, ele tentou se lembrar direito do que acontecera depois do 15° drink. Filipe estava acabado. Sua pele morena desbotada, ombros largos caídos de cansaço, a barba por fazer deixando de ser um charme e se tornando quase um defeito físico, os olhos negros e profundos com bolsas gigantescas os enfeando. Ele já não sabia mais como ser humano, e por mais que tentasse nunca tentava de verdade. Torceu os lábios no que pareceu ser um sorriso, e decidiu que assim estava bom por hoje. Partiu para o banho.
Jogou os pés para dentro do box e só teve tempo de conferir se não havia esquecido de tirar as roupas de baixo, ou se de fato, não as vestia; a água desabou sobre seu dorso. A segunda opção era a certa. Seu corpo gostava de calor, a água quase fervia antes de lhe atingir o corpo, a fumaça havia tomado conta de todo o espaço. Ele vagou longe. Devaneou como um adolescente. Queria por tudo lembrar se do que acontecera antes do celular tê-lo acordado, mas não conseguia e isso o intrigava. Sua mente esteve com a moça de feições desconhecidas, cabelo loiro ou castanho ou ruivo, e ele não fazia ideia de como conseguira beijar-lhe os lábios - ele nem tinha certeza se ela lhe dera mesmo o privilegio, ma ele era bom em fantasiar. Filipe finalizou seu banho com cuidado, tentando permitir que resquícios do perfume dela ainda ficassem em sua pele. Saiu do banheiro e voltou ao quarto. No guarda-roupas tomou em mãos o terno preto, a camisa branca e a gravata vinho. Olhou-se no espelho e tentou imaginá-la colada a seus de 1,93 de altura, com os braços envolvendo sua cintura esguia, e com o rosto pousado sobre seu peito largo. De novo ele tentou se lembrar dela, mais uma tentativa falha.
Olhou de relance a janela do quarto, o apartamento era no 7° andar e o sol de abril já estava alto, ele devia estar quase se atrasando para o trabalho. Calçou os sapatos com pressa, ajeitou seu cabelo e não quis nada de perfume. Correu ate a cama e pegou o celular o arremessando ao bolso das calças, agarrou a pasta e alguns papeis jogados sobre a escrivaninha de mogno vermelho, enfiou tudo debaixo do braço e irrompeu fora do quarto. Deslizou os olhos por todo o lugar em busca das chaves e as encontrou sobre o balcão da cozinha. Deu três passadas e pegou as chaves, em um pulo se pôs trancando a porta de casa. Escorreu pelo corredor e invadiu o elevador ao lado de uma senhora de cabelos brancos e pele murcha -ela pareceu se assustar. Chegou ao térreo e voou para o estacionamento, destrancou as portas e se jogou dentro de seu carro novo. Jogou todos os papeis e a pasta no banco do passageiro. Seus olhos brilharam quando fitaram o chão do auto. Um brinco, pequeno e discreto jogado onde os pés dela haviam estado. Uma pérola cintilante como a pele dela. Ele não coube em si de excitação, mas não fez muito alarde, peças femininas eram comuns ali. Guardou no porta-luvas, junto de objetos semelhantes, o tesouro encontrado.
Pôs o possante nas ruas o mais rápido que pôde. Era quarta e as ruas estavam ate tranqüilas, assim ele pensou; ate que se deparou com um engarrafamento astronômico. Se preocupou, mas eram 7:38, ele tinha exatos 22 minutos para estar engarrafado sem se preocupar com o atraso. Decidiu procurar mais por ela. Jogou-se aos bancos de trás em busca de peças de roupas, mais acessórios, talvez chaves ou documentos. Nada, o brinco era tudo que ele tinha. Conseguiu fazer o carro se arrastar mais alguns metros, e depois mais alguns. Passou ao lado de um carro quase novo como o dele, mas completamente destruído, e viu gente chorando, depois outro carro um pouco mais gasto, mas no mesmo estado do carro anterior, e mais gente chorando. Ele sentiu pena de toda aquela gente. Filipe não era o tipo de homem de muitos sentimentos, mas pela milésima vez hoje, pensou em Luiza e sentiu seu peito arder quando pensou se ela estivesse ali.
Luiza era a moça com quem qualquer homem sonha se casar. Não atendias a todos os padrões de beleza da sociedade, mas costumava encantar todos por onde passava. Pouco mais de 1,60 a tornavam perfeita para se encaixar em qualquer abraço; magra e cheia de curvas por onde as mãos de dezenas de másculos rapazes gostariam de caminhar; cabelos longos e escuros cujos cachos seriam perfeitos para se amontoar sobre o ombro de seu amado. E um sorriso, ah! o sorriso de Luiza era com certeza um dos motivos maiores para se apaixonarem por ela. Quando ela sorria o mundo parava para observar, admirar, clamar para que durasse para sempre. Seu olhar se tornava intenso, meigo e carinhoso, mas, dotado de uma sensualidade nata. Inigualável. Nenhuma mulher conseguia ser como ela.
Luiza e Filipe haviam se conhecido no bar da faculdade, logo no primeiro período de alguma coisa que envolvia números e a fez desistir no semestre seguinte. Ela mudou de curso, mas não de instituição. Eles começaram a ficar e Filipe logo quis deixar claro que ela lhe pertencia, tomou-a em namoro e tudo era um sonho. Tudo entre eles sempre fora um sonho. Até que ele descobriu que quando bebia via Luiza em todas as mulheres, e que as amava também. Filipe foi um cafajeste dali em diante. Tratando-a como tratava as outras “Luizas” e desmerecendo-a. Ela aguentou por anos, sustentou a situação como só uma mulher com o coração quente como fogo em brasa faria. Ela o amou incondicionalmente enquanto ele quis, depois ela deixou que ele partisse. Seu coração ficou em frangalhos. Despedaçado como as pétalas dos lírios usados para fabricar seu perfume. Ela seguiu.
Filipe não se importou em perder Luiza, afinal, ele sabia que enquanto ele quisesse qualquer uma seria ela. Assim ele seguiu, cada dia com uma Luiza diferente em sua cama, no banco do passageiro do carro velho e ao seu lado no bar da festa mais badalada –bancada pelo papai. Seguiu até agora. Seguiu sem ela somente até agora. Porque no último ano, todas as noites ele tem rezado para que a “Luiza” com quem ele se deita, ainda seja “Luiza” quando ele se levantar, ao invés de ser Patrícia, Márcia, Camila ou Luana. Ele tem sentido falta dela e tem lutado para não ligar e implorar para que ela volte, ou melhor, para que ela o receba de volta. Só agora ele percebeu que a única mulher que pode ser ela, é ela mesma.
O engarrafamento para de novo, de frente o acidente, não há solução pois tudo está parado e ele não pode seguir. Filipe evita olhar a cena, não gosta de ver ninguém chorando. Se lembra do brinco que estava jogado no chão, e lembra também que Luiza de verdade sempre detestou usar brincos. Ele sente vontade de ligar pra ela, há vários meses não se falam. Ele enfia a mão no bolso e pega o celular. O número dela ainda está gravado como “Amor”, ele coloca para chamar. Chama uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, na nona chamada um homem atende.
-Alô? - o homem tem a voz rouca e parece ansioso. Filipe não emite som nenhum, sua garganta está travada, ele está engasgado. Desliga o celular e o arremessa pro banco do passageiro.
O carro se move alguns metros mais, e já deixa Filipe quase totalmente livre do engarrafamento. O silêncio das ruas ecoou dentro da sua cabeça. Quem era aquele homem? Por que justo hoje eu tinha de ligar? Ele se mataria se pudesse. Olhando as ruas sem realmente enxergar, Filipe percebe que chegou ao trabalho. Guarda o carro, adentra o prédio, e vai pelas escadas para ficar um pouco só. Ele nunca havia reparado que eram tantos lances ate o 9° andar, mas ele foi tranquilamente. Passou por todos sem nem dar bom dia e se trancou em sua sala. Ligou a TV. Droga! era aquele acidente de novo.
- Nessa manhã um acidente interditou a avenida que corta a cidade, paralisou o trânsito por horas. – falava a repórter- houve duas vitimas com escoriações leves. Um senhor de 63 anos e sua esposa de 56 passam bem. E uma vitima fatal. Uma moça de 24 anos, chamada Luiza Albuquerque vinha de uma festa no centro da cidade quando perdeu o controle do carro e não conseguiu evitar a batida. – Filipe teve um infarto que durou segundos, lutou para se recuperar.
A foto de Luiza de repente surgiu na tela. Em uma maca, com um único corte, aparentemente muito fundo, na cabeça. Ela parecia dormir como ele se lembrava. Ela parecia um anjo, mesmo com as roupas sujas de sangue e os cabelos revoltos, ela ainda era linda como ele gravara em sua mente. Mas ela estava diferente, mais mulher do que a menina que o fizera se apaixonar. A alma de Filipe quis fugir de seu corpo. Ele parecia tentar se rasgar de dentro para fora. Os olhos mareados, o maxilar doendo, a cabeça explodindo como se estivessem a perfurá-la. Ele não podia acreditar, ele não queria acreditar. Até que ele viu... A Luiza na maca, a Luiza de verdade usava o par do brinco que ele encontrara no carro esta manhã.
Ele sentiu isso como um soco no estômago, um chute no saco, uma mordida na língua. Doeu tanto, doeu demais. Era a Luiza de verdade que havia estado com ele essa noite. Era o perfume dela nele. Não fora a bebida que o confundira, ele nem se confundira. Fora Luiza. Por isso o coração inquieto, por isso o peito sofrido por estar só. A culpa o alfinetando nas costelas; talvez se ele tivesse ficado com ela até o amanhecer; talvez se ele não a tivesse deixado ir embora; talvez se ele nunca tivesse ido embora. Acabou ali o sentido de sua vida. Nada mais valia a pena.
Ele se virou para parede-janela de vidro ao sul. Correu o vidro para o lado e surgiu espaço suficiente para que ele passasse. Filipe aproximou o rosto e olhou lá embaixo. Na rua, todos viviam normalmente, suas vidas, seus amores e suas dores. Suportando tudo como seres pré programados. Ele não era assim, não conseguia se imaginar desse jeito. Por isso, inspirou profundamente e expirou com dor. Sentiu alivio começar a possuir sua corrente sanguínea. Em passos milimétricos, se colocou na beira da parede-janela, com as pontas dos pés passando do limite. Ele só fechou os olhos e se jogou.

Filipe sentiu o vento bater forte contra os cabelos, sentiu o coração querendo se esconder e proteger da queda, ele sentiu Luiza perto dele. Quando decidiu abrir os olhos, tornou a queda livre longa, observou cada detalhe de si e dos outros que andavam lá no chão. Viu Luiza sorrir e sentiu a beijando-lhe o rosto. Fechou os olhos de novo. A luz se apagara pra ele, para sempre.

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